Melissa estava cansada do silêncio. Era hediondo,
perturbador e profundo. Um silêncio que vinha do lugar mais remoto da terra: a
alma humana. Mas não era só isso, ela estava num crescente estado de pânico. Noites
mal dormidas. E aquela quietude abismal que a destruía. Nem ao longe, sequer um único
som retumbava, mesmo o de um carro, vozes de estranhos ou passos de transeuntes.
A madrugada avançava e Mel ora fitava o teto, ora rolava na
cama. Levantou-se finalmente. Abriu a gaveta e com ajuda de seu abajur velho
ela folheou indiscriminadamente bulas e receitas médicas em busca de algo que
lhe devolvesse o sono ou a reconfortasse das lágrimas e do infortúnio. Entre os
papéis estavam todos os seus exames de rotina; cardiovascular, cardiorrespiratório,
eletrocardiograma, eletro-encefalograma, audiométricos, entre tantos outros. Tudo
estava em perfeita ordem. Para melissa não existia nenhum distúrbio que
explicasse aquela sensação de um frio intenso capaz de rasgar seu corpo ao
meio.
O que mais a irritava eram os remédios psicotrópicos
receitados pelo seu psiquiatra. Ele dizia que o grande mal daquela pequena era
o mesmo mal que assola a humanidade: a insônia. Mel odiava-o com todas as suas
forças, porque sabia que toda vez que ficava sozinha com ele a conversa ironicamente
se inclinava ao sexo. Aquele velho tarado lhe dava náuseas e ela não era uma
louca mergulhada em sua esquizofrenia. O esfalfamento a engolia e o dia-a-dia
fazia aumentar sua aspereza e tornava sua polidez cada vez mais diminuta.
Melissa sabia que aquele silêncio apavorante não era
habitual, não fazia parte da noite, nem da calmaria da cidade quando dorme. O silêncio
era a voz do demônio espreitando a alma, oferecendo a ela o evento mais
deprimente da vida: o espetáculo da morte.
Ela tinha certeza mais do que ninguém sobre o vazio que rondava seus dias. Pessoas
cochichavam atrás das portas, esquivavam-se de conversas íntimas e abraçavam-na
como se fosse o último adeus. O tempo era cinzento e pesado como chumbo e
dentro dela o amargor consumia seu espírito. Sua cabeça era uma tempestade.
Pesarosamente Mel caminhou até o lavabo. Olhou-se no
espelho. A palidez não mais a incomodava, só o maldito silêncio. Ela então
lavou as mãos e o rosto, abriu o armário do banheiro e pegou dois comprimidos. Um
analgésico e outro antidepressivo. Tomou ambos de uma vez. Voltou a olhar-se no
espelho. Procurou em vão algum fio de cabelo que lhe restasse da quimioterapia.
Porém, Mel nem via mais seu rosto, apenas o de um esqueleto com pedaços de pele
putrefata. Suas entranhas estavam abertas e suas vísceras dependuradas. Ela nada
fez senão contemplar sua hora. Suas roupas estavam ensopadas de sangue
coagulado. Mas era belo saber que somente o som do vento soturno poderia
acalentar seu desassossego. Melissa virou-se abruptamente e abraçou sem medo quem tanto a esperava atrás das sombras do crepúsculo.
“Enfim sós, meu amor”. Era o murmúrio que enfim rompia o
silêncio e o drama.
“Venha, vamos dançar nossa valsa.” Insistiu a morte
esticando seus braços esqueléticos.
E dançaram engalfinhados em direção ao infinito. No meio do quarto um corpo tombou sem vida e Melissa finalmente estava livre.

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