sábado, 5 de maio de 2012

O Silêncio Noturno...


Melissa estava cansada do silêncio. Era hediondo, perturbador e profundo. Um silêncio que vinha do lugar mais remoto da terra: a alma humana. Mas não era só isso, ela estava num crescente estado de pânico. Noites mal dormidas. E aquela quietude abismal que a destruía. Nem ao longe, sequer um único som retumbava, mesmo o de um carro, vozes de estranhos ou passos de transeuntes.

A madrugada avançava e Mel ora fitava o teto, ora rolava na cama. Levantou-se finalmente. Abriu a gaveta e com ajuda de seu abajur velho ela folheou indiscriminadamente bulas e receitas médicas em busca de algo que lhe devolvesse o sono ou a reconfortasse das lágrimas e do infortúnio. Entre os papéis estavam todos os seus exames de rotina; cardiovascular, cardiorrespiratório, eletrocardiograma, eletro-encefalograma, audiométricos, entre tantos outros. Tudo estava em perfeita ordem. Para melissa não existia nenhum distúrbio que explicasse aquela sensação de um frio intenso capaz de rasgar seu corpo ao meio.

O que mais a irritava eram os remédios psicotrópicos receitados pelo seu psiquiatra. Ele dizia que o grande mal daquela pequena era o mesmo mal que assola a humanidade: a insônia. Mel odiava-o com todas as suas forças, porque sabia que toda vez que ficava sozinha com ele a conversa ironicamente se inclinava ao sexo. Aquele velho tarado lhe dava náuseas e ela não era uma louca mergulhada em sua esquizofrenia. O esfalfamento a engolia e o dia-a-dia fazia aumentar sua aspereza e tornava sua polidez cada vez mais diminuta.

Melissa sabia que aquele silêncio apavorante não era habitual, não fazia parte da noite, nem da calmaria da cidade quando dorme. O silêncio era a voz do demônio espreitando a alma, oferecendo a ela o evento mais deprimente da vida: o espetáculo da morte.

Ela tinha certeza mais do que ninguém sobre o vazio que rondava seus dias. Pessoas cochichavam atrás das portas, esquivavam-se de conversas íntimas e abraçavam-na como se fosse o último adeus. O tempo era cinzento e pesado como chumbo e dentro dela o amargor consumia seu espírito. Sua cabeça era uma tempestade.

Pesarosamente Mel caminhou até o lavabo. Olhou-se no espelho. A palidez não mais a incomodava, só o maldito silêncio. Ela então lavou as mãos e o rosto, abriu o armário do banheiro e pegou dois comprimidos. Um analgésico e outro antidepressivo. Tomou ambos de uma vez. Voltou a olhar-se no espelho. Procurou em vão algum fio de cabelo que lhe restasse da quimioterapia. Porém, Mel nem via mais seu rosto, apenas o de um esqueleto com pedaços de pele putrefata. Suas entranhas estavam abertas e suas vísceras dependuradas. Ela nada fez senão contemplar sua hora. Suas roupas estavam ensopadas de sangue coagulado. Mas era belo saber que somente o som do vento soturno poderia acalentar seu desassossego. Melissa virou-se abruptamente e abraçou sem medo quem tanto a esperava atrás das sombras do crepúsculo.

Enfim sós, meu amor”. Era o murmúrio que enfim rompia o silêncio e o drama.
Venha, vamos dançar nossa valsa.” Insistiu a morte esticando seus braços esqueléticos.

E dançaram engalfinhados em direção ao infinito. No meio do quarto um corpo tombou sem vida e Melissa finalmente estava livre.

quarta-feira, 25 de abril de 2012


-- Você vai morrer esta noite.


Sidney desligou o telefone atônito. Seu estômago atacara novamente com suas ânsias e gastrite nervosa. Há tempos ele não sentia tantas dores. Suas entranhas eram jazidas que faziam exalar de sua boca um hálito fétido, prenúncio do fim da vida. Mas eram apenas maus estares que vinham de tempos em tempos. O médico havia lhe dito que sua saúde não o mataria de imediato, mas faria dos seus dias uma torrente de sentimentos sôfregos por todo seu corpo. Ele então tomara um copo de água com gotas de azeite e uma aspirina. Remédio que seu avô, um velho mago xamanista, lhe dera muito na infância para curar os males do espírito.


“Você vai morrer esta noite”. Sidney não era do tipo que se importava muito com trotes. Especialmente aqueles que recebia logo pela manhã. Mas a voz lúgubre e pesada, que dissera aquelas palavras tão adocicadas de fel, não parecia estar brincando de passar trote numa manhã chuvosa de terça-feira. Não era uma data cabalística, nem um aviso mediúnico sobre seus apocalipses pessoais. Era uma voz medonha e convicta de alguém que iria matá-lo e beber seu sangue num ritual celta naquela noite. Ou até o timbre de um serial killer que faria dele o rastro vitimado de uma série de assassinatos numa pacata cidade dos filmes de terror contemporâneos. A diferença é que uma verdade sem fatos não surte efeitos esperados na polícia, que aliás não dá vazão a suposições malucas de um homem de meia-idade que mais pigarreia do que fala. Sua família sempre o achara um louco varrido mesmo.


Ele tinha menos de vinte e quatro horas para descobrir se morreria eletrocutado com uma torradeira mergulhada na banheira ou amanheceria esquartejado num parque deserto da cidade. O mundo anda louco e até os assassinatos mais hediondos parecem ter se tornado piadas na televisão. Se o velho Sidney morresse naquela noite, não seria um espanto. Talvez um cadáver que viraria um bode expiatório nos jornais para motivos de chacota e sensacionalismo barato. Era assim que ele via seu fim: sem dramas, sem cinematografia, sem glamour. Apenas um qualquer jogado na sarjeta como um saco de ossos e tripas. Um problema a menos na sociedade. Então, por que ele? Justamente o homem mais comum do planeta recebendo uma ameaça tão assustadora como aquela? Ninguém sabia. Ele sim.


Sidney acendeu um cigarro. Tossiu bastante antes de dar a segunda baforada na mesa de lata do boteco onde gastava parte do seu auxílio-doença em cachaça e escape emocional. Ele pediu uma boa dose de uísque e depois um duplo martini. Seus olhos avermelharam-se. Já que era pra morrer, que pelo menos morresse encharcado de álcool como uma bomba inanimada de posto de gasolina. Pelo menos faria sentido. Alguém até poderia dizer que sua morte fora por seus excessos. Mas aquela voz rouca e macabra, como uma chuva e um punhal enfiado num gado morto, aquelas palavras duras e repletas de certeza faziam suas mãos tremerem ao levar densos goles de uísque até o fundo da garganta. Aqueles eram medos jamais experimentados para Sidney.


Gosto de cigarro. Gosto de vícios. Seus lábios tinham marcas e sensações bizarras. Bebera gozo de puta e mijo de cadela. Seus olhos viram coisas que o diabo não teria coragem de ver. Suas mãos fizeram coisas que nem estigmas trariam mais redenção. Judas paulistano. Gosto de prazer. Gosto de merda. Gosto de merda feita e desfeita como os lençóis manchados de sêmen e sangue. Sidney se escondia por trás de uma vida mansa e também maldita. Mas no fundo ele merecia morrer como um antílope fugindo desesperado das garras do predador. Ele era um filho da puta que corrompeu meninas direitas e violentou seus destinos. Tudo lapso na juventude. Tudo que agora não passava de gostos ruins no fundo do copo sujo no balcão.


Sidney estava em casa novamente. No seu cortiço. Sabia o que estava acontecendo e aquela voz invadida em sua cabeça fazia afrontas. Não era mais a voz no telefone. Era sua consciência trazendo à tona um passado deveras sombrio. “Você não chora porque não tem lágrimas pra chorar seu velho!” Ele desfitou o teto e vira na janela o fúnebre crepúsculo. “Facínora, nazista, canalha!” Sidney não vivera a segunda guerra mundial, nem saboreou as segregações raciais africanas da sua época. Ele transava com mulatas e batia nelas porque mereciam apanhar. Não por conta da raça, mas pela condição social. Ele se arrependera de todos os pecados. Deitou-se novamente na cama, irrequieto, e tornou a olhar pela fresta da janela. A noite uivava através das sombras que dançavam atrás da cortina entreaberta. A lua refletia o espelho, perto da entrada do banheiro. Sidney via apenas parte do seu rosto e fios de cicatrizes na face esquerda. 


Era alta noite. Sua cabeça era uma tempestade. Dois casamentos falidos e uma carreira de torturas ao lado de um grande amigo: Sérgio Paranhos Fleury. Sidney pegou seu revólver. Um ótimo calibre trinta e oito. Colocou no ouvido e puxou o gatilho. “Você vai morrer esta noite”. Foi a última frase dita a si mesmo. Seus miolos espalharam-se pela cama e seus olhos esbugalhados pulando da órbita, mortificados, estranhamente observavam uma foto. Quase um cartão-postal no porta-retrato em cima da escrivaninha. Sua filha segurava no colo sorridente, numa imagem nua e congelada, um lindo bebê negrinho que de volta também sorria cúmplice...